As flores astrais dos Secos & Molhados

Secos & Molhados…minha primeira lembrança musical. Eu me lembro de estar subindo uma rua perto de casa com a minha tia, e “O Vira”, talvez o maior sucesso deles, estava tocando em volume altíssimo numa casa próxima. Eles estavam em todos os lugares e conquistaram todos…crianças, jovens, adultos, velhos. Partiram tão rápido quanto surgiram…porém deixaram um rastro inédito (de ousadia e androginia) na Música Popular Brasileira. No post de hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre esse fenômeno conduzido por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad.

COMO LEVE PLUMA, MUITO LEVE, POUSA

Os Secos & Molhados surgiram em 1972. Sua formação era: Ney Matogrosso  (voz), João Ricardo (violões) e Gerson Conrad (violões). Tiveram também um baterista Marcelo Frias (que inclusive saiu na capa do primeiro disco), mas que abandonou o grupo logo no começo.

A idéia do grupo surgiu pela vontade que João Ricardo tinha de montar uma banda de Rock. Já o grupo foi batizado de Secos & Molhados após João ter viajado de férias para Ubatuba, litoral de SP e ver um armazém de secos e molhados. Teve um estalo e decidiu usar esse nome.

Gerson Conrad era vizinho e amigo de João Ricardo e também tinha vontade de ter uma banda. Ney Matogrosso entrou em 1971, indicado pela compositora Luli (co-autora de “O Vira). A primeira apresentação do grupo ocorreu em outubro de 1972 na “Casa de Badalação e Tédio” em São Paulo.

O SANGUE LATINO DOS SECOS & MOLHADOS

Os Secos & Molhados entraram em estúdio para gravar o seu primeiro e clássico álbum em maio de 1973. Foi gravado em apenas 4 canais nos estúdios Prova, onde hoje é a TV Gazeta, em São Paulo. Foi lançado em outubro do mesmo ano.

O disco em si é muito rico musicalmente. Ele mistura vários estilos tais como: rock, balada, flamenco, fado etc. Uma verdadeira colcha de retalhos embalada em poesias belíssimas. Apesar de todo conceito dos Secos ser de João Ricardo, a participação dos músicos convidados foi fundamental para a sonoridade dele.

O grande Zé Rodrix foi um músico muito importante na produção desse disco: “Era muito coletiva à criação…Muito coletiva. Por incrível que pareça, eu acho que fica acho que fica aquela coisa…o João até prefere acreditar nisso. Mas aquilo ali não é…musicalmente não é invenção do João. O João é o cara que inventou aquilo, digamos…ideologicamente, esteticamente…mas a invenção sonora, foi uma coisa muito criativa e muito feita ali…”.

A capa do disco, criada pelo fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues, é antológica. É como se eles estivessem sendo servidos em uma mesa, como parte de uma refeição. Ney Matogrosso nos conta sobre a produção dessa capa: ” O João Ricardo trouxe a idéia, e eu achei a idéia maravilhosa exatamente por isso. Porque tinha uma coisa de São João Batista, mas ao mesmo tempo tinha uma coisa agressiva para o momento que a gente vivia…aquelas cabeças decepadas. E ao mesmo tempo ela não é trágica! Tá misturada com arroz, feijão, com pão. Estamos sendo servidos como qualquer outra coisa que estava sendo servida ali…”.

NO TERCER MUNDO GLOBAL

Após o lançamento, o disco foi um fenômeno de vendas, batendo Roberto Carlos. Juntava a sonoridade inovadora do grupo com o visual, que era extravagante e ousado e os Secos viraram um fenômeno em questão de meses.

Após a explosão no Brasil, abriram-se as portas do mercado latino-americano. Ney conta como empresários americanos quiseram leva-lo para uma carreira internacional no auge dos Secos: “Quando estávamos no México, nós saímos em uma página inteira de uma revista dedicada à música…uma revista americana, com foto nossa. Os camaradas foram no México, queriam me tirar dos Secos & Molhados e disseram pra mim…isso três empresários americanos, via empresário mexicano. A imagem é muito boa, mas é o som que tem que ser mais pesado. Eu disse…olha, não me interessa. Eu tô começando uma coisa no Brasil. Me interessa fazer no Brasil, e eu não quero sair do Brasil…”

Logo após esse episódio, mais precisamente após o fim dos Secos, o Kiss surge para o mundo utilizando as máscaras, marca registrada dos Secos. Cópia? Plágio descarado? Zé Rodrix joga uma luz sobre esse assunto polêmico até os dias de hoje: “Uma vez o Lennie Dale estava com dois amigos americanos, e eles apareceram lá em casa para comer uma feijoada no sábado. Eram dois caras, um chamava Gene e outro chamava Paul (…). Eu mencionei pra ele, que os Secos, uma idéia original do João, fosse uma banda com maquiagem (…) e esses dois caras olharam, acharam aquela idéia boa e alguns meses depois aparece o Kiss, que era era exatamente os dois, o Paul e o Gene…”.

Secos & Molhados

QUE FIM LEVARAM TODAS AS FLORES?

Após a turnê do México, houve um grande desentendimento entre os membros dos Secos & Molhados, que até hoje é uma incógnita. Cada integrante tem a sua versão. Gerson Conrad acena com uma possibilidade: “Quebrou o encanto sabe…era como um cristal que tivesse caído no chão. O Secos & Molhados só existiu, enquanto existiu o espirito de equipe…”.

O segundo é último álbum dos Secos & Molhados com a formação clássica foi lançado em agosto de 1974. Dois clipes de divulgação foram lançados no Fantástico: “Tercer Mundo” e “Flores Astrais”. Infelizmente quando esse programa foi ao ar, o grupo já não existia mais.

Cada um foi para o seu lado: Ney Matogrosso deu início à uma bem-sucedida carreira-solo; Gerson Conrad lançou dois trabalhos-solo e se apresenta esporadicamente. Já João Ricardo, lançou alguns álbuns solo (o seu primeiro solo, o famoso “disco rosa” é sensacional!) e tentou ressucitar o grupo várias vezes… mas sem Ney e o brilho original.

Por hoje é só amiguinho(a). See you next post!

Assista a seguir, a apresentação histórica dos Secos no Maracanazinho. Cogita-se que haviam 30 mil pessoas assistindo esse show e mais 20 mil do lado de fora:

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Denilson Carreiro

Denilson Carreiro é baixista, cantor, compositor e produtor musical na banda Bumerangue Carma.

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